Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]


a Budapeste nada de novo

por Uma moradora, em 15.09.16

Erich Maria Remarque escrevia:

 

"We were eighteen and had begun to love life and the world; and we had to shoot it to pieces. The first bomb, the first explosion, burst in our hearts. We are cut off from activity, from striving, from progress. We believe in such things no longer, we believe in the war."

 

 

Parece uma visão calamitosa não parece?

E apesar do enfoque ser a 1.º Guerra Mundial, e esta parecer tão desfasada no tempo uma vez que já não restam sobreviventes com memórias legíveis desse tempo, esta afirmação continua tão real quanto o sofrimento alheio com o qual somos bombardeados.

 

É o sofrimento alheio na sua extensão máxima. 

 

A questão dos refugiados já foi imensamente debatido em tudo quanto é rede, meio ou comunicação social. Não vale a pena dissertar sobre os lados opostos da barricada nessa questão. A quem seja a favor do acolhimento, há quem seja contra. Civilizadamente respeita-se os dois lados. Civilizadamente mando, mentalmente, para aquele-sítio-que-todo-o-tuga-manda-quando-se-enerva todos os que são contra. Adiante.

 

Mesmo aqui na rua as opiniões divergem. Entre as personagens fictícias que cá vão habitando, há opiniões de todos os gostos, e aí é fácil de aceitar, mas também se se estica muito, dou cabo da personagem mais rápido do que o George R. R. Martin faz com os seus na Guerra dos Tronos. No entanto, a outra moradora real desta rua também tem, de certeza, a sua opinião sobre este assunto - e irá me a dar quanto mais não seja quando vir que eu a citei aqui. E sim, somos dois - mas, neste momento a dela não me interessa nada.

 

O que me interessa é o que se passa realmente lá fora, e, infelizmente, as notícias que extravazam para cá uma pequena sombra do real sofrimento daquelas pessoas (sem raças, credos, sexos, opiniões partidárias, etc...) só mostram que realmente a Budapeste nada de novo. Viktor Orban deve ter sido muito mau aluno a história ou deve ter uma memória seletiva no que toca ao seu país (ele e os seus partidários claro), pensando que a história do seu povo só começou pós 1945. Não sou eu que lhe vou dar lições de história. Não estou habilitado para isso. Mas dava-lhe umas quantas lições de humanidade, de olhos fechados.

 

Um ano passou desde que um vergonhoso muro de arame farpado foi erigido na fronteira. Desde aí, todos os dias, juntamente com milhares de refugiados, os direitos e valores mais altos e fundamentais que integram aquilo que é a União Europeia estão a ser violentamente oprimidos e reprimidos por uma nação que já teve, num passado recente, do outro lado do "muro". Como tal, não é só Luxemburgo que devia pedir a suspensão ou até a saída da Hungria da União Europeia, devíamos ser todos nós. Todos aqueles que se compadecem por ver alguém a dormir numa esquina abrigada de uma cidade qualquer deste país. Porque se ser sem-abrigo em Portugal é difícil e inimaginável, ser sem-abrigo, sem-nação e sem-nada como se de uma subespécie humana se se tratasse nesses recônditos recantos de pedaços de terra sufragadas e governada pela lei da bomba e da bala deve ser infindavelmente pior.

 

Para mim, pessoalmente falando, pior do que ver alguém desesperado a pedir ajuda, é ver alguém desesperado por ver todos os pedidos de ajuda recusados.

 

Se há coisa de que detesto falar (e escrever), principalmente em blogs, é de temas bastante sérios e sensíveis. Não gosto, porque acho que se cai facilmente naquele escopo do "é fácil falar atrás de um computador". E não gosto porque é verdade, faz-me sentir ainda mais impotente do que aquilo que já sou.

 

Assim, resta-me a esperança de que o meu país, à semelhança desta rua, onde ficticiamente temos capacidade para todo o refugiado do Mundo, continue a acolher, seja um, dez, cem ou milhares.

 

 

And whoever saves a life, it is considered as if he saved an entire world

Autoria e outros dados (tags, etc)


2 comentários

Sem imagem de perfil

De E depois a 17.09.2016 às 02:20

BUM!

E essas palavras são trocadas por outras. Olha a Alemanha, refugiados a fazerem merda.
Abre as portas? Da tua casa, se for.
Imagem de perfil

De Uma moradora a 17.09.2016 às 11:11

Aí está o primeiro preconceituoso.

Porque é que pões todos no mesmo saco? Diz-me lá, não temos já alguns refugiados cá? Já há largos meses. Por acaso já ouviste na comunicação social algo que eles tenham feito?

Isso é o mesmo que dizeres que todos os gajos de Telheiras são violadores, só porque um era, ou dizer que todos os membros de claques são vândalos e delinquentes só porque alguns são. Eu nunca disse que não é preciso controlar, fiscalizar, assegurar a segurança quer deles quer nossa. Mas eu pergunto-me como é que tu, ao veres a imagem daquele menino sírio afogado na praia não te compadeces com o drama de milhares de pessoas - muitas crianças e mulheres - que só querem um sítio onde possam adormecer sem o medo de lhes cair uma bomba em cima durante o sono.

Já havia terroristas antes de haver refugiados.

Assim como já havia preconceituosos também.



Meu caro, uma árvore não é a floresta. Nunca foi. Nunca será

Comentar post



Mais sobre mim


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.


Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D