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o homem que queria ser Eminem

por Uma moradora, em 13.09.16

Chamo-me Francisco. Tenho 21 anos e sou homossexual.

Nem sempre fui, acho eu. A minha mãe tem a certeza de que eu nem sempre fui. 

O meu pai?

O meu pai tem a absoluta certeza de que eu NÃO SOU!

No entanto, a Marilyn - a brasileira que o meu pai "contratou" uma vez, na noite imediata ao dia em que lhe contei o que era - não tem dúvidas de que eu sou homossexual.

Já não sei sinceramente. Muitas opiniões baralham-me.

Nunca namorei. Nem com rapazes nem com raparigas.

Minto.

Namorei sim, com uma rapariga. Mas foi em segredo.

Era minha prima. Lucília. Tinha 28 anos e eu apenas 14.

Lembro-me como se fosse ontem, foi após o tradicional almoço em família no dia de todos os santos.

Pedi licença para sair da mesa e ir para o quarto - não gosto muito de conversas sobre pessoas defuntas e as qualidades que eles ganham depois de morrerem.

Entretido, dominava, juntamente com o meu amigo virtual "Wolfmother69", um cenário de imperialismo feudal no Age of Empires quando ela entrou.

Fechou a porta atrás dela e trancou-a.

Aprendi com ela, nesse dia, o sentido de sermos pragmáticos.

Aproximou-se.

Agarrou-me por um braço e empurrou-me para a cama.

Despiu-me e despiu-se. Agora que penso, acho que deve ter sido um truque de magia, porque não percebo como é possível despir alguém ao mesmo tempo que se se despe.

Eu estava quieto, mudo e calado.

Acariciou-me, estimulou-me, masturbou-me - sinto-me envergonhado a escrever isto, mas é verdade.

Depois, sentando-se geometricamente em cima de mim, desflorou-me.

Produzi duas reações: uma fisiológica outra psicológica.

A fisiológica foi instintiva e natural, fruto da acção dela sobre mim.

A psicológica foi a que me traumatizou.

Enquanto ela desfrutava do meu imberbe e impávido corpo adolescente, a minha mente tentava transpor todas as barreiras corporais existentes, numa tentativa desenfreada de se escapulir do meu corpo.

Mas era tarde de mais.

Não consegui avisar o Wolfmother69 e ele sozinho viu-se desamparado e perdemos dramatica e drasticamente aquele jogo.

Ainda me lembro das súplicas de auxílio dele na minha caixa de mensagens durante o jogo.

Não pude fazer nada.

Nunca lhe respondi de volta. A vergonha era muita.

Desinstalei logo o jogo.

Voltando à prima Lucília: no fim, depois de se dar por satisfeita comigo, segredou-me ao ouvido que eu ia ser sempre o menino dela e que era o nosso pequeno segredo.

Urgiu-me a não contar a ninguém.

Respeitei e não contei.

Não porque tivesse gostado, não foi bem o caso - e acho que ela também percebeu isso.

Mas porque fui educado a não desobedecer: nem aos mais velhos, nem à família.

Ela era mais velha e da família, logo, contar a alguém era uma ideia que nem se prescrutava nas profundezas do meu subconsciente quanto mais.

No entanto, acho que nessa altura já devia ser homossexual em part-time.

Até hoje fiquei-me por aquela experiência.

É engraçado até pensar nisso.

Sou um praticamente virgem quando sei que podia - e ainda posso, mas não quero - ser um astro no mundo da indústria pornográfica.

Digo isto porque, atualmente, a Lucília tem 35 anos, casada há 12 anos com o Ernesto.

Ah não tinha frisado isto?

Sim, ela já era casada quando quis namorar comigo durante cerca de 38 minutos, mais coisa menos coisa.

Ele não sabe como é óbvio. Nunca soube, e acho que nunca irá saber.

Mas, se me enganar, e um dia vier a descobrir, eu sei que o Ernesto é forte.

Por isso aguenta bem com um par de cornos.

De qualquer das formas, voltando aos dias de hoje, a Lucília hoje tem 35 anos e tem uma filha, a Maria Inês, que tem cerca de 6 anos e uns dois ou três meses.

Escusado será dizer que é parecida comigo para vocês chegarem lá certo?

E não é só fisicamente. Não é só os olhos, as covinhas nas bochechas quando sorri ou mesmo a feição aquilínea do nariz que herdou de mim.

Não, mesmo aspetos interiores ela herdou de mim.

Tal como eu, já se nota na Maria Inês que gosta de rapazes também.

Tal mãe, tal pai, tal filha.

Que orgulho.

Coitado é do Ernesto, mas pronto, a vida nem sempre é fácil e às vezes é preciso alguém só para pagar as contas e sustentar a casa.

Por isso é que o admiro apesar de tudo.

É um homem resoluto, perfeito no seu papel de pai, marido e patriarca de uma família que no fundo, na génese genética, nem é dele, mas whatever, o mundo moderno está mais do que preparado para aceitar um pai e marido corno sem que seja necessário olhá-lo de lado.

O que importa é o bem-estar dos seus.

Faz-me lembrar as histórias que contavam de um familiar afastado que eu tive.

Nem sei o nome dele, mas lembro-me de comentarem, vagamente, nos almoços de família, que esse moço, ainda jovem, partiu para os States na esperança de singrar no mundo do showbiz.

Morava na mesma freguesia, três ruas acima da minha e era tido como um rapaz calado e um pouco anti-social.

Foi por isso que foi uma surpresa quando, sem se despedir de ninguém, desapareceu de casa deixando para trás apenas um post-it, daqueles que se compra na Staples:

Fui para a América. Persigo um sonho e não conseguiria viver comigo próprio se nem tentasse realizá-lo.

Voltaremos a ver-nos. Até lá, estejam atentos à televisão. 

Vou-vos deixar orgulhosos.

P.S. - o canal da MTV é o 72.

 

Dizem que queria ser como um cantor loirito famoso por aquelas bandas: ou porque andava sempre em grupos de pessoas onde se destacava - piada racista eu sei -, ou porque falava muito rápido nas canções e sempre com ar chateado ou ainda porque tinha um problema nas partes sagradas de um homem visto que em todos os concertos que dava 80% do tempo passava-o a segurar o micro (o de cantar atenção) com uma mão e a segurar a "aparelhagem" (não é preciso explicar) com a outra.

Coitado.

Nunca o foi.

Nem tampouco chegou a América.

Apanhou boleia de um desconhecido que disse que ia para norte sem especificar, e morreram ambos num desastre rodoviário, ao despistarem-se num cruzamento à entrada de Santa Marta de Portuzelo.

Tentou concretizar o seu sonho. Mais não se pode pedir.

Eu por mim falo.

Contento-me em seguir o meu destino,

Rego as minhas plantas, amo as minhas rosas.

O resto é a sombra das árvores dos outros.

Isto de ser gay e jardineiro municipal, tem muito que se lhe diga.

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