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assim, de rajada, duas coisas que me causam profunda irritação:

 

- peregrinações

- tradicionalismos bacocos

 

 

primeiro. peregrinações. e antes de mais, a propósito do quê? hoje, assistindo casualmente a uma conversa entre dois transeuntes:

- "arrancamos sábado às 06h da manhã"

- "deve ser uma viagem bonita de se fazer"

- "sim é, vale mesmo a pena, e é pelo espírito percebes? e ir a santiago assim é diferente"

 

acabei de fazer o saco à pressa e saí, porque isto de estar num balneário a ouvir dois matacões de toalha a falar de espiritualismos e ultra maratonas sem sentido nenhum é coisa para mexer com uma pessoa. no entanto, a temática, ficou-me a matutar na cabeça, por ter sido algo que já tinha discutido com transeuntes mais próximos da minha pessoa.

porquê? porquê ir a santiago, ou até fátima a pé? ok, eu respeito os argumentos todos, mas vou aqui fazer a desconstrução dos mesmos:

 

1.º - é uma questão de fé. 

não, não é. até se podem convencer do que contrário, mas não que não é. quanto muito é uma questão de resiliência misturada com alguma estupidez. a fé em alguma coisa não se mede pela distância que marca no teu nike run ou no teu pedómetro, nem o santuário de fátima ou santiago oferecem um cartãozinho para acumulares milhas de fé pela distância que percorres à lá pata

 

2.º - é uma questão de sacríficio.

aqui em parte até é verdade. amigo meu que se meta numa jornada dessas e me convide é meio caminho andado para sacrificar logo a nossa amizade. mas, falando mais a sério, alguém acredita que se jesus christ e os doze amigos tivessem, pelo menos, um fiat punto disponível, faziam tantos quilómetros a pé? é que a tecnologia avançou no sentido de poder facilitar as deslocações, portanto, se ao contrário de há dois mil anos, podemos ir a santiago em quatro ou seis horas, para quê levar quarenta e oito ou setenta e seis horas? é realmente um sacrifício, mas é um sacrifício desnecessário.

 

3.º - é pelo passeio.

ok, este é rídiculo. eu gosto de passear a pé, gosto mesmo, e se for pelo porto ainda melhor. no entanto, eu quando passeio a pé gosto de perder tempo a acreditar naquilo que vejo - "deu-me olhos para ver. olho, vejo, acredito." obrigado Pessoa, as aulas de português serviram para alguma coisa - ao contrário de quem vai nessas cruzadas que apenas e só olha, e o que olha em volta é nada mais do que a paisagem que compõe a estrada nacional rumo ao destino, ou seja, uns restaurantezitos à face da estrada e aquela bomba da repsol que mostra que afinal o dono da bomba da bp onde atestamos o carro na terra está nos a assaltar em vez de ser nosso amigo.

 

4.º - é pela aventura.

tendo em conta o número de acidentes rodoviários e a qualidade média dos condutores de valença, terras de bouro e afins, realmente concordo que possa ser uma aventura. mas tem piada é se der para contar essa aventura no fim, verdadeiro fim, e não um final abrupto com uma jante enfiada no bucho empalando-nos contra um sobreiro às três da manhã, fazendo de nós uma espécie de pirilampo (devido ao colete refletor claro está) gigante paralisado.

 

5.º - é pelo convívio.

aqui, das duas uma, ou têm uma noção distorcida de convívio, ou então têm poucos amigos, e mais do que isso, os poucos que têm mais valia nem os ter de tão chatos que são. além do mais, qual é o convívio que se tem numa viagem dessas? vão em filinha indiana a rezar os avé marias uns à frente dos outros. se conseguirem chegar ao destino a saber que o antónio que vai em terceiro é benfiquista e tem saudades de ver a sua equipa treinada pelo toni já é muito bom.

 

eu podia estar aqui a dissertar longamente sobre qualquer um destes pontos, mas foco-me numa realidade incoerente, e dou exemplos concretos de pessoas que conheço. faz-me confusão ver fulano x ou cicrano y a gabarolar-se de já ter feito essa peregrinação duas ou três vezes, e depois para ir à padaria a trezentos metros de casa pegam no carro. seems logic.

 

falando em incoerências, vamos agora ao exemplo do tradicionalismo bacoco que se vive no nosso jardim plantado à beira mar.

 

restos de comida. toda a gente odeia restos de comida certo? ninguém gosta, no seu perfeito juízo, de almoçar o que sobrou no jantar. é que ninguém que eu conheça gosta. mas e o natal gente? e esse fenómeno da chamada "roupa velha"? em minha casa é um exemplo crítico disso. as gentes responsáveis pelo festim alimentar desse dia, dão-se ao luxo e ao trabalho de fazer mais comida do que a necessária para terem a certeza que sobra para fazerem a tal roupa velha do dia seguinte. isto é só estúpido. 

 

e a vós ilustres turistas que por aqui passam, o que vos irrita mais além deste post?

 

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5 comentários

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De Psicogata a 29.09.2016 às 10:14

O texto que fazes em relação às peregrinações pode ser feito praticamente em relação a tudo.
Maratonas: Porque raio é que alguém corre uma maratona? Correr 42 km muitas vezes com pouca preparação a incorrer no risco de morte?
Trails: Quem é no seu juízo prefeito vai descer e subir montes e ravinas com alta probabilidade de se estatelar no chão?
Escaldar o Evereste: arriscar a ficar sem dedos e sem nariz? Porquê? É parvo.
Futebol: qual é a piada de ver 22 homens feitos a correr atrás de uma bola às curvas, aos saltinhos, aos apalpões, às piruetas?
Andar de avião: só podemos ser doidos para nos enfiarmos qual sardinhas numa lata com asas que não batem e que se tem algum problema técnico não temos por onde fugir.
Acho que é uma questão de desafio e superação, a diferença das peregrinações para outros desportos é só a fé a associação da fé. Andar de avião é só mesmo porque o ritmo da vida assim o obriga, a vontade de conhecer um país do outro lado do mundo é mais forte que o medo.
Uma peregrinação a Fátima é muito diferente dos Caminhos de Santigo, o Caminho de Santiago é feito por pessoas com e sem fé, embora tenha sempre um caracter espiritual, não é obrigatoriamente feito por católicos.
Acredito também que seja difícil de explicar, sempre que falo com pessoas que o fizeram têm dificuldade em exprimir o que sentiram, sei que as pessoas veem mudadas, mais calmas, mais ponderadas, é claro que o efeito é de curta duração.
Ir a Santiago a pé não deve ser muito diferente de fazer uma viagem pelo mundo Budista, curiosamente são duas coisas que gostava de fazer.
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De oBomIdiota a 29.09.2016 às 11:55

Percebo o que queres dizer.

Mas nos trails, maratona, futebol e etc, há um objetivo pré definido, que é ganhar. Tens uma meta traçada e competes com alguém, quanto mais tens o espírito de competição.

Quanto ao alpinismo! Alguém que me compreende! Para mim é tão só o desporto mais ridículo do mundo, se é que é desporto. Já imaginaste? Correr o risco de morrer, demorar um mês a escalar um Evereste qualquer, sujeito a ficar sem 3 dedos e metade do nariz, para quê? Chegar lá cima, e dizer: "Caraças quase que consigo ver a minha casa daqui" e agora toca a descer para baixo. É só estúpido.

Desejo-te boa sorte se fores fazer a viagem, mas continuo sem perceber qual o intuito. Não há objetivo nenhum, pelo menos eu não considero que haja um objetivo coerente.
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De Psicogata a 29.09.2016 às 12:04

O alpinismo é mesmo daquelas coisas assim incompreensíveis. Eu acredito que a paisagem seja deslumbrante, mas perder dedos por isso?? Não me parece.

Na peregrinação também há a meta de chegar, não há competição, mas nas maratonas e trails muitas vezes o único objetivo é terminar, digo-te eu que já fiz um de 28km e o único objetivo era mesmo chegar ao fim :)

Quanto à peregrinação o objeto é meditares e encontrares-te, ter tempo para pensar, abstrair do mundo, poderia perfeitamente ser uma técnica de mindfulness.
É claro que há muita gente que o faz sem este sentido, por isso entendo o que dizes, porque conheço pessoas que o fazem só porque sim e isso sim é inexplicável.
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De oBomIdiota a 29.09.2016 às 12:11

Eu faço vários de 10 e 20 kms (mas só estrada) não gosto de andar pelo meio dos montes :p, mas mesmo que o objetivo seja chegar ao fim, tens desafios auto propostos: chegar ao fim; fazer o melhor tempo possível etc.

Numa ida a santiago nem por isso, se chegares hoje chegas, se nao chegares não chegas, e lá está, a maior parte (tenho a certeza de que é a maior parte) vai só porque sim e é engraçado, e isso para mim é simplesmente irracional . Mas admito que haja quem consiga encontrar verdadeiros motivos para ir.

No entanto, para meditar, também medito sentado e quieto ahahaha
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De Psicogata a 29.09.2016 às 12:16

Não exageres, as peregrinações têm etapas e há malucos a fazer 60km por dia! Uma loucura para o organismo.

Eu tanto corro em estrada como no monte, mas confesso que gosto mais do monte, para além de não afetar tanto as articulações, respira-se ar puro e quando o objetivo não é treinar a sério até se para para apreciar a paisagem :)

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