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metendo o dedo na ferida

por oBomIdiota, em 07.10.16

e após mais uma palhaçada iniciada por taxistas - vá-se lá saber se com o apadrinhamento da ANTRAL ou não -, e sim, falo do grupo de facebook "Táxis de Portugal", cada vez mais defendo que a serem proibidos e criminalizados eram os taxistas e não sistemas de transporte individual e/ou coletivo como a Uber ou a Cabify.

 

pessoas que admitem que é necessário recorrer à violência e que chamam, à boca cheia, de "cobardes" aos colegas que, muitos deles infelizmente não se podem dar a grandes luxos de protestos e paralisações porque têm bocas em casa para alimentar, são pessoas que não merecem desenvolver nenhum tipo de atividade que tenha contacto com serviço, de certa forma, público em geral.

 

são seres tristes que ainda vivem agarrados aos estigmas dos anos 80, de uma sociedade portuguesa tacanha e info excluída, cuja referência máxima é o taxista toni da maria rueff, e cujos assuntos primordiais do quotidiano continuam a ser as discussões com os fregueses, que nem os querem aturar porque já estão carregados com os seus problemas diários, acerca daquele fora de jogo que o bandeirinha não assinalou e roubou mais um golo ao Benfica.

 

isto tudo, enquanto toca baixinho a cassete do graciano saga, ao som do qual a virgem do terço pendurado no retrovisor vai bailando, enquanto os clientes esforçam-se por manter a serenidade naqueles bancos em pele artificial cheia de remendos e cheiro a naftalina num mercedes bege de mil novecentos e troca o passo numa viagem do aeroporto a alvalade, que em vez de cinco minutos, demora duas horas e meia porque o taxista pensa que somos lorpas de vila velha de ródão e que não conhecemos nada.

 

não meus senhores, os únicos anafados, analfabetos, info excluidos, inergúmenos e autênticos dejetos putrefactos desta sociedade atual são vocês que vão ao volante e que pensam que os radialistas da TSF davam um melhor governo executivo do que qualquer um de esquerda ou direita.

 

muita vergonha alheia por vocês todos.

 

e vou-me que tenho um Uber ali à minha espera.

 

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a Budapeste nada de novo

por Uma moradora, em 15.09.16

Erich Maria Remarque escrevia:

 

"We were eighteen and had begun to love life and the world; and we had to shoot it to pieces. The first bomb, the first explosion, burst in our hearts. We are cut off from activity, from striving, from progress. We believe in such things no longer, we believe in the war."

 

 

Parece uma visão calamitosa não parece?

E apesar do enfoque ser a 1.º Guerra Mundial, e esta parecer tão desfasada no tempo uma vez que já não restam sobreviventes com memórias legíveis desse tempo, esta afirmação continua tão real quanto o sofrimento alheio com o qual somos bombardeados.

 

É o sofrimento alheio na sua extensão máxima. 

 

A questão dos refugiados já foi imensamente debatido em tudo quanto é rede, meio ou comunicação social. Não vale a pena dissertar sobre os lados opostos da barricada nessa questão. A quem seja a favor do acolhimento, há quem seja contra. Civilizadamente respeita-se os dois lados. Civilizadamente mando, mentalmente, para aquele-sítio-que-todo-o-tuga-manda-quando-se-enerva todos os que são contra. Adiante.

 

Mesmo aqui na rua as opiniões divergem. Entre as personagens fictícias que cá vão habitando, há opiniões de todos os gostos, e aí é fácil de aceitar, mas também se se estica muito, dou cabo da personagem mais rápido do que o George R. R. Martin faz com os seus na Guerra dos Tronos. No entanto, a outra moradora real desta rua também tem, de certeza, a sua opinião sobre este assunto - e irá me a dar quanto mais não seja quando vir que eu a citei aqui. E sim, somos dois - mas, neste momento a dela não me interessa nada.

 

O que me interessa é o que se passa realmente lá fora, e, infelizmente, as notícias que extravazam para cá uma pequena sombra do real sofrimento daquelas pessoas (sem raças, credos, sexos, opiniões partidárias, etc...) só mostram que realmente a Budapeste nada de novo. Viktor Orban deve ter sido muito mau aluno a história ou deve ter uma memória seletiva no que toca ao seu país (ele e os seus partidários claro), pensando que a história do seu povo só começou pós 1945. Não sou eu que lhe vou dar lições de história. Não estou habilitado para isso. Mas dava-lhe umas quantas lições de humanidade, de olhos fechados.

 

Um ano passou desde que um vergonhoso muro de arame farpado foi erigido na fronteira. Desde aí, todos os dias, juntamente com milhares de refugiados, os direitos e valores mais altos e fundamentais que integram aquilo que é a União Europeia estão a ser violentamente oprimidos e reprimidos por uma nação que já teve, num passado recente, do outro lado do "muro". Como tal, não é só Luxemburgo que devia pedir a suspensão ou até a saída da Hungria da União Europeia, devíamos ser todos nós. Todos aqueles que se compadecem por ver alguém a dormir numa esquina abrigada de uma cidade qualquer deste país. Porque se ser sem-abrigo em Portugal é difícil e inimaginável, ser sem-abrigo, sem-nação e sem-nada como se de uma subespécie humana se se tratasse nesses recônditos recantos de pedaços de terra sufragadas e governada pela lei da bomba e da bala deve ser infindavelmente pior.

 

Para mim, pessoalmente falando, pior do que ver alguém desesperado a pedir ajuda, é ver alguém desesperado por ver todos os pedidos de ajuda recusados.

 

Se há coisa de que detesto falar (e escrever), principalmente em blogs, é de temas bastante sérios e sensíveis. Não gosto, porque acho que se cai facilmente naquele escopo do "é fácil falar atrás de um computador". E não gosto porque é verdade, faz-me sentir ainda mais impotente do que aquilo que já sou.

 

Assim, resta-me a esperança de que o meu país, à semelhança desta rua, onde ficticiamente temos capacidade para todo o refugiado do Mundo, continue a acolher, seja um, dez, cem ou milhares.

 

 

And whoever saves a life, it is considered as if he saved an entire world

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